Uma equipe da empresa de segurança XBOW encadeou três falhas até então desconhecidas do Google Chrome em um único ataque que executa código em um computador com Windows quando o usuário apenas carrega uma página da web, segundo a empresa.
Os pesquisadores desenvolveram o ataque em seis dias, orientando agentes de inteligência artificial (IA) que rodavam o modelo GPT-5.6 Sol, da OpenAI, disponível publicamente. O Google confirmou as três falhas, corrigiu-as e pagou à XBOW sua maior recompensa, de US$ 250 mil, por um exploit completo para o Chrome (código que explora falhas de segurança para obter controle do sistema).
O ataque é uma cadeia completa: um conjunto de falhas usadas em conjunto para romper todas as camadas de proteção do Chrome, desde uma página da web até o computador.
O Chrome executa o código das páginas da web dentro de dois sandboxes (ambientes isolados que impedem uma página invadida de acessar o restante da máquina). A cadeia ultrapassou as duas barreiras. O resultado foi código rodando fora do Chrome, no Windows, sem que o usuário precisasse clicar em nada ou baixar qualquer arquivo.
Todas as três falhas já foram corrigidas, e a XBOW afirma que elas nunca foram usadas contra usuários do Chrome. As duas que têm identificadores públicos foram corrigidas na versão 152.0.7977.65, em 25 de agosto, e na versão 152.0.7977.82, em 3 de setembro.
O que o usuário deve fazer
O Chrome se atualiza automaticamente, mas a correção só passa a valer depois que o navegador é reiniciado. Por isso, a recomendação é fechar e abrir o Chrome novamente e confirmar se a versão é a 152.0.7977.82 ou superior.
Os seis dias e o contexto por trás do resultado
Os seis dias são o destaque da notícia, mas precisam de contexto. A XBOW desenvolveu a cadeia premiada entre o domingo, 2 de agosto, e a sexta-feira, 7 de agosto, durante as conferências Black Hat e DEF CON, em Las Vegas. Essa maratona veio após meses de trabalho anterior: a empresa definiu o desafio em uma reunião de equipe realizada em janeiro, em Malta, e sua primeira cadeia completa para o Chrome levou dois meses para ser concluída.
Uma versão da cadeia premiada esteve perto de falhar quando uma das falhas em que ela se apoiava se revelou uma que o Google já conhecia. A XBOW havia montado o exploit em partes intercambiáveis, com alternativas prontas, e por isso substituiu esse componente e a cadeia se manteve funcional. Pela contagem da própria empresa, com base em seus registros de uso, a maratona de seis dias custou cerca de US$ 40 mil em cobranças de IA.
A XBOW também separou o que a IA fez do que foi feito pelas pessoas. Os agentes de IA pesquisaram o código-fonte do Chrome, testaram hipóteses, criaram provas de conceito e escreveram os primeiros rascunhos do exploit. Já os pesquisadores escolheram os alvos, forneceram contexto, questionaram os resultados dos agentes e decidiram quais partes unir.
Um dos pesquisadores, Brendan Dolan-Gavitt, desenvolveu a cadeia premiada com os agentes. "Antes dos LLMs (modelos de linguagem de grande porte), uma cadeia completa para o Chrome exigiria uma equipe de quatro pessoas por cerca de 6 a 9 meses para ser produzida; nossa primeira submissão levou 2 meses. A premiada? Seis dias", escreveu Dolan-Gavitt.
As três falhas
As três falhas estavam em partes diferentes do Chrome. As notas de lançamento do próprio Google creditam Dolan-Gavitt, da XBOW, por duas delas e listam a versão que corrigiu cada uma.
- A primeira falha deu ao atacante o controle da memória dentro do motor de JavaScript do Chrome, o V8 (mecanismo que executa scripts JavaScript nas páginas).
- A segunda, no código que lê imagens WebP animadas, usou esse controle para escapar do sandbox interno do motor e fazer uma gravação precisa na memória do computador.
- A terceira, no Crashpad, o gerenciador de falhas do Chrome que roda fora do sandbox, transformou essa gravação única em execução completa de código na máquina.
As duas falhas identificadas são classificadas como de alta gravidade e exigem que o usuário carregue uma página. A falha do WebP foi corrigida no mesmo ciclo de versões do Chrome 152, mas não é possível confirmar um identificador público para ela: o código indicado no anúncio da XBOW para a etapa do WebP, CVE-2026-85045, é o identificador que o Google e o relatório técnico da própria XBOW atribuem à falha do V8. O CVE (sigla de Common Vulnerabilities and Exposures, sistema global de identificação de vulnerabilidades) é o código padronizado usado para catalogar falhas de segurança.
O Programa de Recompensas por Vulnerabilidades do Chrome (VRP, na sigla em inglês) paga até US$ 250 mil por um exploit de cadeia completa, o valor mais alto que oferece por um único relatório, segundo regras atualizadas em 2026. O programa concede no máximo quatro dessas recompensas por ano. A XBOW afirma que esta é a primeira recompensa de cadeia completa para o Chrome sob as regras de 2026 e a primeira concedida a uma empresa de segurança autônoma.
Antes da correção, as falhas colocavam em risco, segundo a empresa, cerca de 1 bilhão de pessoas que usam o Chrome no Windows, diante desse tipo de ataque.
O foco da XBOW é a velocidade. "Levou uma estimativa de US$ 40 mil em capacidade computacional e seis dias para que um único pesquisador produzisse uma cadeia que antes levaria meses", disse o fundador Oege de Moor no anúncio.
Dolan-Gavitt resumiu o alerta para quem faz a defesa dos sistemas: "Seis dias e US$ 40 mil não são muito tempo nem muito dinheiro quando o retorno é uma cadeia para o Chrome!" Segundo ele, a barreira agora está muito mais baixa. "Defendam-se de acordo", escreveu.