Centenas de aplicativos comuns de IA escondem recursos de deepfake sexualmente abusivos

Aplicativos que se apresentam como serviços cotidianos, como aulas de idiomas ou treinos com IA, escondem uma rede que gera imagens sexuais falsas e abusivas a partir de fotos enviadas pelos usuários.


Matt Burgess Segunda - 02 de Novembro de 2026 às 07:54
Wired
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À primeira vista, o Viefur parece apenas mais um aplicativo comum de inteligência artificial. Mas isso serve de fachada para o que parece ser a verdadeira finalidade dos aplicativos: criar imagens de deepfake sexualmente abusivas.

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Uma investigação da WIRED descobriu que o aplicativo faz parte de uma rede de mais de 400 domínios e aplicativos conectados que, assim como o Viefur, costumam se apresentar como serviços do dia a dia, como aulas de idiomas ou treinos de academia orientados por inteligência artificial (IA). No entanto, quando acessados em certas condições, os aplicativos da rede carregam discretamente uma interface web que permite gerar imagens e vídeos sexuais explícitos com IA, a partir de fotos enviadas pelos usuários. Os aplicativos incluem cenas como “estupro no quarto” e “faca ameaçadora”, em que um homem encosta uma faca no pescoço de uma mulher.

A rede foi descoberta à vista de todos por vários pesquisadores, depois que eles investigaram links de milhares de anúncios em vídeo com conteúdo explícito de deepfake publicados na Meta, nas plataformas Facebook e Instagram. Como a WIRED vem relatando nos últimos meses, centenas desses anúncios continham material de abuso sexual infantil gerado por IA, incluindo imagens de crianças reais e de um membro de uma família real europeia. Os anúncios alcançaram dezenas de milhares de pessoas e motivaram investigações de órgãos reguladores em todo o mundo.

Em todos os casos, os anúncios direcionavam para aplicativos enganosos disponíveis nas lojas da Apple e do Google, que permitiam gerar imagens explícitas e fazer pagamentos com o Apple Pay e o Google Pay. A rede por trás dos aplicativos de nudificação parece estar publicando esse conteúdo há cerca de um ano, às vezes com dezenas de aplicativos por semana. Isso acontece apesar de Google, Apple e Meta afirmarem que aplicam suas políticas, que proíbem conteúdo nocivo de deepfake em suas plataformas.

Os aplicativos e domínios investigados pela WIRED parecem ser administrados por desenvolvedores chineses e por uma empresa registrada em Hong Kong, a KeLing Technology Limited, segundo uma análise dos domínios da web e do funcionamento dos serviços. Os endereços de e-mail vinculados à empresa, aos aplicativos e aos serviços relacionados não responderam a vários pedidos de comentário da WIRED. No entanto, depois de serem contatados, pareceram apagar as conexões públicas entre a KeLing Technology Limited e as ferramentas de deepfake.

“Trata-se de uma operação organizada e comercial: um único operador por trás de centenas de aplicativos e domínios descartáveis, disfarçados para passar pela análise da App Store e divulgados em dezenas de milhares de anúncios da Meta com nomes falsos de pagadores”, diz Paul Bouchaud, pesquisador-chefe da organização sem fins lucrativos AI Forensics, que investigou a rede. “Eles não esperam que a fiscalização os alcance, e até agora isso não aconteceu.”

Comportamento oculto

Ao baixar um dos aplicativos da rede de deepfake, você pode ver exatamente o que foi anunciado, como um aplicativo para criar imagens de animais de estimação com IA. Mas, nos bastidores, segundo os pesquisadores, os aplicativos decidem discretamente se mostram o conteúdo inofensivo ou se carregam uma interface web com deepfakes explícitos.

“Cada vez que o aplicativo é baixado, há uma chamada ao servidor com algumas informações, como de onde o usuário está acessando, o idioma e um identificador único. Então o servidor responde se deve ou não mostrar a versão explícita ou a versão não explícita”, explica Bouchaud, que fez a engenharia reversa do código dos aplicativos e dos sites associados. Segundo ele, não há uma lista clara de motivos pelos quais um usuário recebe a versão explícita de um aplicativo, mas um dos gatilhos parece ser baixá-lo depois de clicar em um anúncio associado nas plataformas da Meta.

Os sites ligados aos aplicativos revelaram os segredos da rede e a escala em que ela opera. Ao abrir o site de um dos aplicativos, a tela provavelmente ficará totalmente preta, sem nenhum conteúdo. A única mudança perceptível é que o endereço da página (URL) passa a incluir a palavra “risk”. Mas os sites hospedam a camada oculta de deepfakes explícitos que pode ser carregada em cada aplicativo.

Essa interface web contém dezenas de modelos de vídeos e imagens de deepfake pornográfico, e os usuários podem enviar fotos de pessoas para serem inseridas nas cenas sexuais. A interface permite a compra de “diamantes” para gerar imagens e traz links para outras contas em redes sociais, onde os usuários podem entrar em contato com os desenvolvedores para tirar dúvidas ou fazer reclamações.

O código dos sites também revela detalhes sobre toda a rede. Um pacote de JavaScript que pode ser facilmente decifrado, segundo os pesquisadores, contém uma lista de todos os domínios e aplicativos criados pelos desenvolvedores, incluindo detalhes dos pacotes dos aplicativos, chaves de criptografia, rastreadores de anúncios do Facebook e muito mais.

“Eles continham esta enorme lista de configurações com outros domínios e chaves de criptografia diferentes”, diz Maël Le Touz, pesquisador de ameaças da empresa de segurança Infoblox, que identificou quase 500 domínios vinculados. “Eles executam o mesmo código e todos fazem referência uns aos outros.”

A análise de Bouchaud sobre o momento em que os domínios foram registrados mostrou que os aplicativos começaram a aparecer no fim de 2025, com um pico na primavera deste ano. Em certo momento, cerca de 30 sites e aplicativos de nudificação estavam sendo registrados por semana, afirma o pesquisador, e 27 deles estavam disponíveis na Play Store do Google em setembro. Segundo a pesquisa de Bouchaud, esses aplicativos foram baixados mais de 350 mil vezes no total, e muitos foram classificados como adequados para todas as faixas etárias.

Um dos aplicativos mais populares, chamado DiffAI, foi criado em dezembro de 2025 e já foi baixado mais de 100 mil vezes na Play Store. Uma avaliação de usuário na Play Store do Google dizia: “Este aplicativo contém modelos para criar material de abuso sexual infantil (CSAM, na sigla em inglês) e outros tipos de material pornográfico. Não há nenhuma verificação de idade.”

O DiffAI foi removido da Play Store pouco antes de a WIRED entrar em contato com o Google sobre a rede. O Google não respondeu ao pedido de comentário da WIRED, mas já tinha removido a maioria dos aplicativos antes de ser procurado. (Partes da rede de deepfake foram reportadas por jornalistas dinamarqueses em setembro.)

Da mesma forma, a Apple removeu 19 aplicativos da App Store, incluindo o aplicativo de fotos de animais de estimação Viefur, depois que a WIRED questionou a empresa sobre a atividade e compartilhou os domínios associados. “Projetamos a App Store para ser um lugar seguro e confiável para nossos usuários, e aplicativos de nudificação e outros conteúdos pornográficos são estritamente proibidos”, afirma Adam Dema, porta-voz da Apple.

“Analisamos todos os aplicativos antes de serem publicados, e esses aplicativos estavam em conformidade com nossas regras quando os analisamos”, diz Dema. “Após a aprovação, seus desenvolvedores alteraram o site de onde o aplicativo puxa seu conteúdo, substituindo o que havíamos aprovado por conteúdo pornográfico, e promoveram isso por meio de anúncios pornográficos hospedados em uma plataforma de terceiros.” A empresa afirma ter suspendido dezenas de milhares de aplicativos por usarem essas táticas de “isca e troca” no último ano e que atualizou recentemente as regras de sua loja para restringir ainda mais as ferramentas de “nudificação”.

Origens chinesas

No centro da rede de “nudificação” parece estar um conjunto de desenvolvedores chineses cujas identidades parecem ter sido ocultadas de propósito. “Ela usa hospedagem exclusivamente chinesa, o código é escrito em chinês e tem muitos comentários em chinês”, diz Le Touz, observando que vídeos explícitos em anúncios publicados nas plataformas da Meta, que promoviam os aplicativos, continham marcas d’água de um software chinês de edição de vídeo.

Os aplicativos e domínios da rede costumam usar políticas de privacidade genéricas, endereços de e-mail gratuitos do Gmail ou do Outlook e nomes de desenvolvedores obscuros, como parte do que parecem ser esforços para esconder suas conexões. Os anúncios dos aplicativos publicados nas plataformas da Meta também usaram nomes aparentemente falsos, como Draftmondcreldbro Duhustepre e Swaldmungsha Glasirdcroldshold, além de páginas sem seguidores. Desde o início deste ano, a pesquisa de Bouchaud identificou dezenas de milhares de anúncios de deepfake explícito ligados à rede, muitos deles com linguagem semelhante no texto publicitário, nas plataformas da Meta.

“Esses anúncios violam não apenas uma, mas várias políticas da Meta”, diz Katie Paul, diretora do Tech Transparency Project, que foi a primeira a descobrir os anúncios que mostravam representações explícitas de deepfake de menores. “Não há dúvida sobre o que você está vendo e sobre o que o aplicativo está anunciando”, afirma. Segundo Paul, as empresas de tecnologia precisam responder a perguntas sobre para onde vai o dinheiro gerado pelos aplicativos e sobre como as pessoas por trás dos aplicativos e serviços de nudificação parecem sempre conseguir contornar seus sistemas de moderação de conteúdo e segurança.

A KeLing Technology Limited parece ser uma parte importante da operação. Embora o site da empresa seja pouco mais que uma fachada, o nome dela constava como contato do primeiro site registrado na rede. A marca desse site também aparecia nos dados de contato dentro do modelo de deepfake explícito usado nos aplicativos. Bouchaud também identificou uma página de login administrativo ligada à interface de deepfake explícito que menciona “Keling”. Além disso, endereços de e-mail com o domínio da empresa apareceram em pelo menos um aplicativo que já foi removido das lojas.

No fim de setembro, uma notificação enviada aos usuários da interface de deepfake explícito anunciou que um novo modelo de IA poderia ser usado. O modelo se chamava Veyra, com o slogan “Mais real. Mais natural. Mais selvagem.”, exibido nos aplicativos. A página inicial de um site chamado Veyra AI listava como e-mail de contato um endereço da KeLing Technology.

Quando a WIRED entrou em contato com os endereços de e-mail da KeLing, além de alguns dos listados nas políticas de privacidade dos aplicativos, não houve resposta. No entanto, depois que a WIRED procurou a empresa, alguém renomeou alguns dos canais de redes sociais associados, removeu os e-mails da KeLing do site Veyra AI e retirou o endereço da KeLing Technology Limited do primeiro site registrado.

A Meta afirma que, em 2025, baniu a KeLing Technology Limited de anunciar em suas plataformas depois que a empresa deixou de “cumprir uma notificação de cessação e desistência”. (A Meta se recusou a compartilhar a notificação com a WIRED, citando motivos legais.) “Temos regras rígidas contra a promoção de aplicativos de nudificação e trabalhamos com empenho para manter esse material fora de nossos serviços”, diz um porta-voz da Meta. Segundo a empresa, embora a KeLing Technology Limited tenha continuado a tentar anunciar por outros meios, ela age contra os anúncios assim que toma conhecimento deles.

Depois que a WIRED compartilhou os mais de 400 domínios com a Meta, o porta-voz informou que a empresa havia identificado mais de 3.000 anúncios associados a eles, dois terços dos quais já tinham sido removidos de seus sistemas. Posteriormente, a Meta informou à WIRED que tomou medidas contra 11.600 contas de anúncios, mais de 4.700 páginas de empresas, 5.200 usuários e 15.000 páginas vinculadas aos domínios, além de bloquear 209 aplicativos de anunciar em suas plataformas.

“Os criminosos por trás deles adotam medidas cada vez mais enganosas para escapar da detecção, escondendo-se atrás de nomes e identidades falsas, veiculando anúncios que parecem inofensivos e, às vezes, direcionando para as lojas de aplicativos do Google e da Apple, com a verdadeira intenção dos anúncios revelada somente após o clique”, afirma o porta-voz.

Enquanto a WIRED finalizava a reportagem, anúncios e aplicativos semelhantes continuavam sendo publicados nas plataformas de tecnologia.

Deepfake Inteligência artificial Meta

FONTE

Wired