Segurança cibernética

Infraestrutura exposta revela como afiliados de ransomware usaram agentes de inteligência artificial para executar invasões

Pesquisadores identificaram um ecossistema de invasões com inteligência artificial operado por afiliados dos grupos INC e The Gentlemen, com uso de sistemas expostos e extorsão de dados.


Ravie Lakshmanan Sábado - 24 de Outubro de 2026 às 18:56
The Hacker News

Pesquisadores de segurança cibernética descobriram um ecossistema de invasões impulsionado por inteligência artificial (IA) e operado por afiliados dos grupos de ransomware INC e The Gentlemen.

No centro da operação está um “Framework Autônomo de Cadeia de Ataque de Equipe Vermelha” (estrutura de software que simula ataques reais para testar defesas), chamado Phantom. O ator de ameaça é avaliado como falante de russo e atua tanto como operador de invasão e extorsão de dados quanto como provedor de infraestrutura para diferentes parceiros do ecossistema de ransomware.

“Os operadores exploraram sistemas de borda e de acesso remoto em grande escala, incluindo FortiClient EMS, SimpleHelp, cPanel e gateways de rede privada virtual (VPN)”, afirmou a SOCRadar. “Eles usaram bases de conhecimento gerenciadas por IA para rastrear vítimas, credenciais roubadas e o andamento das campanhas.”

Um aspecto marcante da campanha é sua estrutura operacional “executada por IA e aprovada por humanos”. Nela, um operador humano fornece um comando específico para cada vítima e revisa cada etapa, enquanto as invasões são executadas por meio do OpenCode, com modelos comerciais hospedados na OpenRouter.

A análise do diretório exposto no endereço 45.227.254[.]43 revelou que a atividade registrou 8.257 mensagens em 133 sessões. Quando os modelos se recusam a executar os comandos, o operador reescreve os pedidos como uma avaliação autorizada de equipe vermelha, em vez de simplesmente trocar de modelo.

Vulnerabilidades exploradas

O acesso inicial é obtido pela exploração de dispositivos de borda voltados ao público em grande escala. Em seguida, os atacantes se movimentam lateralmente, estabelecem persistência, exfiltram dados e avançam até a implantação de ransomware. Os registros do operador indicam que os ataques envolvem a exploração das seguintes falhas:

  • CVE-2024-57727 (travessia de diretório no SimpleHelp) (explorada ativamente)
  • CVE-2026-35616 (desvio de autenticação no Fortinet FortiClient) (explorada ativamente)
  • CVE-2026-41940 (desvio de autenticação no cPanel/WHM) (explorada ativamente)
  • CVE-2026-15409 (falsificação de requisição do lado do servidor, SSRF, no SonicWall SMA 1000) (preparada para ataques, sem comprometimento confirmado)
  • CVE-2026-63030 (WordPress wp2shell) (desenvolvida pelos operadores)
  • CVE-2026-42208 (injeção de SQL no LiteLLM) (desenvolvida ou referenciada)
  • CVE-2026-9082 (injeção de SQL no Drupal) (desenvolvida ou referenciada)

“Uma vez dentro da rede, os operadores seguiam um ciclo recorrente: enumerar o domínio, escalar para administrador de domínio sempre que possível, coletar credenciais com ferramentas de roubo, priorizar arquivos financeiros, de RH, jurídicos e executivos, e coletá-los por meio de túneis reverse SOCKS”, afirmou a SOCRadar.

“O reaproveitamento de credenciais foi o principal multiplicador de força. Em um caso, uma única senha reutilizada desbloqueou ao mesmo tempo a VPN, os servidores, a plataforma de gerenciamento remoto (RMM), o backup e as plataformas de gestão de segurança. Os produtos de segurança foram neutralizados com um killer baseado em BYOVD (uso de drivers vulneráveis legítimos) e evasão em nível de carregador, embora os registros dos próprios operadores mostrem resultados mistos contra os sistemas de detecção e resposta de endpoints (EDR) corporativos.”

Ferramentas utilizadas

Para sustentar os objetivos do ator de ameaça, a operação usa um conjunto diversificado de ferramentas, formado por estruturas sob medida, ferramentas de código aberto modificadas e binários compilados:

  • Phantom, um framework ofensivo de segurança e de testes de invasão com inteligência artificial, implantado em operações reais por meio do OpenCode. Ele usa um agente que se comunica com um servidor externo para receber tarefas, executar comandos e devolver resultados. O framework oferece 18 módulos de habilidades para apoiar reconhecimento, engenharia reversa de binários, pesquisa de exploits, esteganografia, avaliação de telemetria e identificação de EDRs, entre outras funções.
  • WormGPT-MCP, um conjunto de 32 servidores do Model Context Protocol (MCP, protocolo que conecta modelos de IA a ferramentas externas) que ligam o sistema de IA a 32 módulos diferentes, que vão desde reconhecimento até extorsão.
  • Ghost C2, uma coleção de três gerações de implantes polimórficos que se comunicam com um servidor remoto por meio da Cloudflare, do Telegram ou de DNS (comando e controle, C2). Eles executam tarefas e mantêm sinalizações persistentes em dispositivos comprometidos.
  • RevSocks, uma estrutura de SOCKS5 reverso (protocolo de proxy) usada para pivotar dentro das redes das vítimas e preparar dados para exfiltração.

Outras ferramentas incluem o QuickLine, um agente Mythic com fachada na Cloudflare; um killer de EDR da Quick Heal/Seqrite que abusa do driver da Zemana (“zam64.sys”) como parte de um ataque BYOVD; e programas de exfiltração como rks3 e BackupAgent.

Extorsão baseada em dados

A análise de dezenas de registros de extorsão redigidos por IA mostra que os atores de ameaça adotam uma abordagem centrada em dados. Eles examinam as informações financeiras roubadas para determinar o valor que a vítima pode pagar sem precisar envolver um banco ou uma seguradora. Em seguida, enviam amostras mascaradas como prova e aumentam a pressão por meio de ligações de vishing com roteiros e ameaças de notificar clientes, parceiros e órgãos reguladores.

Os dados roubados são publicados no site de vazamentos caso a vítima não pague dentro de um prazo de 24 a 72 horas. Ainda assim, o desfecho final dessas exigências de resgate é desconhecido, já que nenhuma carteira de criptomoedas ou registro de pagamento foi recuperado.

Alcance da operação

Estima-se que 62 organizações tenham sido alvo da operação, das quais quatro acabaram listadas nos sites de vazamento dos grupos INC e The Gentlemen. Os Estados Unidos concentram mais de 50% dos alvos. Os ataques tiveram como principal foco os setores industrial, de manufatura e de energia, seguidos por organizações da área de saúde e farmacêutica.

“Em toda essa infraestrutura exposta, os atores se envolveram em uma exploração generalizada de serviços de internet expostos, com foco específico em gateways FortiClient EMS, gateways Ivanti, Citrix, SonicWall e OpenVPN, servidores de gerenciamento remoto SimpleHelp e painéis de hospedagem cPanel”, afirmou a SOCRadar.

“Paralelamente, eles conduziram operações por meio do framework Phantom, estabeleceram proxies reverse SOCKS da RevSocks para pivotamento de rede, implantaram variantes do Ghost C2 e utilizaram bases de conhecimento gerenciadas por IA para registrar, com precisão, a telemetria das vítimas, as credenciais comprometidas e o status das campanhas ativas.”

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