Como muitos serviços online, o Muse permite que usuários compartilhem buscas, conversas, imagens e conteúdos semelhantes com outras pessoas. Esse tipo de recurso geralmente envolve clicar em uma opção que cria um URL (endereço de página na internet) exclusivo, que qualquer pessoa pode usar para abrir uma página com o conteúdo. Para evitar que informações potencialmente sensíveis fiquem acessíveis a pessoas não autorizadas, esses endereços costumam conter uma longa sequência de texto difícil de adivinhar.
O Muse, que o CEO (diretor-executivo) da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou no mês passado ter sido “construído desde a base para privacidade e segurança”, parece adotar as mesmas precauções. Mas uma decisão central de design na construção dos URLs tornou os links fáceis de encontrar. Como resultado, pesquisadores da empresa de segurança Claroc afirmam ter conseguido listar 6.800 links que usuários do Muse criaram para compartilhar conversas com outras pessoas. Depois de abrir algumas centenas deles, os pesquisadores encontraram informações que claramente não deveriam estar disponíveis publicamente, incluindo:
anotações de um candidato preparando uma ligação confidencial de recrutamento de executivos com um laboratório de IA (inteligência artificial) de ponta, com o nome do contato interno do laboratório e o horário da reunião;
a revisão interna de receita de uma empresa nacional de marketing, marcada para o CEO;
o pedido de empréstimo de um pequeno empresário, com o valor solicitado;
uma lista de tarefas que incluía um alerta de fraude bancária, com um número parcial de conta e o valor e o horário de uma transação;
o relatório interno de desempenho de um investidor imobiliário, com dois endereços de imóveis e os valores exatos de retorno, renda e financiamento imobiliário;
o calendário anual completo de férias da equipe de um local de trabalho, listando dezenas de funcionários e a semana em que cada um estaria ausente;
“Se vocês tivessem nos perguntado antes, teríamos imaginado que reunir essas informações exigiria um esforço real”, escreveram os pesquisadores. “Levou uma única consulta.”
Em comunicado enviado por e-mail em resposta a perguntas do Ars Technica, a Meta afirmou: “Abrimos o programa de recompensas por falhas de segurança do Muse para que pesquisadores pudessem levantar diferentes cenários e nos ajudar a continuar melhorando o produto. As pessoas podem compartilhar artefatos específicos do Muse, o que cria uma página acessível a quem tiver o link. No entanto, pausamos essa funcionalidade enquanto analisamos o relatório e avaliamos mudanças na forma como esses links podem ser descobertos.”
Asaf Aprozper, cofundador e CTO (diretor de tecnologia) da Claroc, afirmou ter relatado as descobertas pelo programa de recompensas da Meta em 8 de outubro. Ele também tentou contato com pessoas da empresa pelo LinkedIn, sem obter resposta em nenhum dos casos.
A forma mais fácil de descobrir os URLs é fazer uma pesquisa de DNS passivo (sistema que registra o histórico de conversão de nomes de domínio em endereços IP) em um dos muitos serviços comerciais disponíveis. Os registros de DNS passivo armazenam, ao longo do tempo, o histórico de resolução de nomes de domínio para endereços IP, além de registros de servidores de nomes e de servidores de e-mail. Esses sistemas normalmente coletam respostas de DNS a partir de sensores posicionados em resolvedores recursivos de DNS ou em outra infraestrutura. Um registro de DNS passivo geralmente é criado quando um sistema de monitoramento observa uma resposta de DNS. No caso em questão, quando a pessoa a quem o link foi destinado clica nele, a informação de DNS é registrada em um banco de dados pesquisável.
Os pesquisadores da Claroc conseguiram descobrir os links de compartilhamento do Muse porque todos usam o domínio cf.metaaiusercontent.com. A descoberta foi facilitada ainda mais pela decisão de incluir o nome da conversa no URL, junto com uma longa sequência de texto. Exemplos simplificados desses links são home-sale-budget-9f21c8a3.cf.metaaiusercontent.com, q3-revenue-review-7b1e42f0.cf.metaaiusercontent.com e loan-application-draft-a4c9e2.cf.metaaiusercontent.com. É essa última decisão de design, colocar o título da conversa no subdomínio em vez de no caminho do URL, que torna possível a descoberta pública.
“Muitos assistentes de IA compartilham por link público”, afirmou a Claroc. “O que torna os compartilhamentos do Muse fáceis de encontrar é o título que fica dentro do endereço da web, que os registros públicos de DNS disponibilizam para qualquer pessoa pesquisar. Chamamos isso de GhostShares: páginas que se abrem para pessoas que nunca receberam o link e que essas pessoas podem encontrar por conta própria.”
O Muse ganhou rapidamente uma das primeiras posições na App Store da Apple. O assistente preenche formulários de forma autônoma, marca compromissos, faz compras, cria documentos e executa todo tipo de outras ações. Para funcionar como previsto, o Muse precisa de acesso à maior parte das contas do usuário. A Meta tem promovido intensamente o assistente como uma plataforma digna da confiança extraordinária de que ele precisa para funcionar como previsto.
Três semanas após o lançamento do Muse, o especialista em segurança para macOS Patrick Wardle descobriu uma vulnerabilidade de dia zero que permitia a qualquer outro aplicativo instalado no mesmo dispositivo assumir o controle total da conta do usuário no Muse. A Meta minimizou a gravidade da falha sob o argumento de que a exploração só seria possível se o dispositivo já estivesse comprometido. A empresa não reconheceu a constatação de Wardle de que um simples ataque ClickFix bastava para sequestrar uma conta. A facilidade para descobrir links de compartilhamento reforça a pergunta sobre se o Muse merece o acesso que exige.
Com a suspensão do recurso pela Meta, os usuários do Muse deixam de enfrentar essa ameaça específica, pelo menos por enquanto.
Esta notícia foi publicada originalmente no Ars Technica.